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RESENHA

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O POÇO É UM ESPELHO DE NÓS

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Fonte :Netflix

Recentemente, um longa da plataforma de streaming Netflix tem chamado atenção entrando para debate nos espaços das mídias sociais. O Poço (The Plataform) mostra uma realidade alternativa de uma realidade real. Confuso? É a chave que torna todo o enredo interessante e essencial de ser discutido. Através da perspectiva do personagem Goreng, vivido pelo ator espanhol Iván Massagué, com direção de Galder Gaztelu-Urrutia, o qual traz um contraponto importante: o recorte de classe social entre “os de cima” e “os de baixo” e a luta pela sobrevivência de todos os indivíduos.

O cenário fechado a la Expresso do Amanhã (2013/ direção de Bong Joon-ho), traz como atrativo a divisão em andares de um poço extremamente profundo, criando um ambiente de extremos. Goreng tenta compreender no decorrer do filme o funcionamento daquele lugar tão peculiar que se tornara sua nova realidade. Todos os dias uma espécie de elevador de concreto passa pelos andares com os suprimentos para todos se alimentarem. Mas o “x” da questão está exatamente aí. A depender da personalidade dos habitantes de cada andar do poço, o quanto ele escolher se alimentar definirá o quanto o debaixo também irá. Logo, outras problemáticas sociais ficam em evidência. Quem está no 5° não se importa em comer mais do que realmente necessita, e quando chegam no 148° andar a comida é praticamente inexistente em meio aos seus antigos recipientes.

Desenhando um pouco a relação do protagonista com os demais personagens, temos Trimagasi, o companheiro de andar de Goreng. O peculiar velhinho Trimagasi, gosta de repetir diversas vezes sua palavra favorita: óbvio. E para ele, o óbvio lhe pertence. Goreng é a representação da descoberta constante em contraste com a experiência de muitos andares de Trimagasi, o que cria o ambiente de tensão crescente entre os dois personagens. Os verbos saber e ser são postos à prova a cada ponto de virada. Algo que deve ser destacado sobre o longa de Gaztelu-Urrutia, é que a história não está naquilo que parece óbvio, está exatamente na obviedade dos detalhes despercebidos pelo olhar comum. O reflexo disso está na progressão do protagonista, o qual vai do choque ao hábito em seis meses.

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O conflito central desencadeado da desigualdade do acesso ao alimento, leva as camadas mais baixas da sociedade do poço a se renderem a outras formas de sobreviver: à violência. E a personificação dessa violência está em Miharu. Ela está no fluxo do “elevador” de concreto em busca de seu filho perdido. Para ela a razão vai além do apenas comer. E ela luta incansavelmente (mesmo quando tem que se alimentar de outrem para seguir sua busca), mesmo quando há dúvida quanto ao seu caráter e quando a realidade feminina lhe é brevemente exposta, mas com forte impacto.

 

O ponto menos explorado do filme é justamente os dos mais privilegiados. Mas o pouco que é mostrado dá a dimensão espantosa de diferença entre o andar zero e o 333. Lá nas nuvens do todo-poderoso, há escolha não apenas do que podem comer, mas do que produzir de alimento para os debaixo. 

Vi ontem um bicho na imundície do pátio...

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O contexto de O Poço pode nos remeter a uma realidade além da telinha. A que não parece distante quando uns se alimentam com muito, e outros comem os seus restos. Essas circunstâncias podem ser facilmente lidas no poema O Bicho, de Manuel Bandeira:

O Bicho

“Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio

Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,

Não examinava nem cheirava:

Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato,

Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.”

Quando a comida chegava nos andares mais baixos, já não era comível. Era lixo, era resto. Assim há ligação entre a voracidade escrita por Bandeira, que acaba por ser a mesma dirigida por Galder Gaztelu-Urrutia. O poço é de fato um filme que mora nos detalhes.

 

Ao decidir entrar naquele lugar, Goreng podia escolher um único objeto para acompanhá-lo. E ele simplesmente escolhe um livro. Ao perguntar ao seu companheiro de “cela” qual objeto ele havia trazido, o choque: Trimagasi havia trazido uma faca. Mas não uma faca qualquer. A descrição que ele faz de seu bem mais precioso, coloca em ênfase nossa relação como sociedade de consumo. Ele a compra pelo desejo que a propaganda dela lhe havia encarnado.

 

Mas ela fora superada. E Trimagasi nunca superou isso. O tempo que ele está lá dentro é muito maior que o de Goreng. E ele questiona isso. Questiona o óbvio o tempo inteiro. E por que diabos Goreng escolheria um livro? Livros nos fazem pensar. Inclusive em como agir. O ponto mais curioso é qual : Dom Quixote, o grande clássico de Cervantes. E o trecho citado por Goreng resume um pouco a insanidade que uma realidade pode produzir ao citar o que ele mesmo representaria  : “ Num lugar da Mancha que não quero lembrar, vivia, não há muito tempo, um cavaleiro com lança em cabido, com sua adarga antiga, corcel fraco e galgo corredor.” O moinho de vento o ataca. Que suba o gás com novas amarras.

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Essa matéria foi escrita por Brenda Bertoldo, durante a disciplina Redação Jornalística II: Jornalismo Opinativo, ministrada pela professora Nataly Queiroz.

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O Expresso é fruto do trabalho coletivo interdisciplinar dos alunos do 2° e 3° períodos de Jornalismo da UNIAESO.

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