MATÉRIAS

Os combatentes da desinformação
Como trabalham as agências de verificação no Brasil
O maior foco deste ano para as agências de checagem eram as Eleições Municipais. Porém, eles se depararam com uma enxurrada de Fake News relacionadas à crise sanitária, que todos os setores da sociedade estão enfrentando. Apesar da alteração do alvo principal, não significa que elas não estejam preparadas para qualquer novo combate, relacionados ou não ao pleito. E também não quer dizer que já está dado por certo o adiamento dele, pois o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda trabalha com o calendário eleitoral vigente. A ministra do Supremo Tribunal Federal, Rosa Weber, afirmou, pouco antes de deixar o cargo de presidente do TSE no mês de maio, que além das medidas já adotadas para adequar rotinas à nova realidade e seguir as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e das autoridades médicas e sanitárias, “o Tribunal segue orientando suas ações no sentido do estrito cumprimento das etapas do calendário. Estas, em essência, estão previstas pela legislação federal e pela Constituição da República. Assim sendo, em viés jurídico qualquer iniciativa em sentido diverso extrapola os limites de atuação da Justiça Eleitoral”.
Apesar do futuro incerto das eleições brasileiras, o fenômeno das Fake News continua forte e preocupando a todos os setores. Em 2016, tornou- se a palavra mais falada do ano, segundo o dicionário Oxford. As eleições norte-americanas do mesmo ano, colaboraram para a popularização do termo pelo mundo. O presidente Donald Trump, à época candidato, em seus discursos de campanha, tentava descredibilizar o trabalho da Imprensa ao usá-lo. O Buzzfeed News, em reportagem de novembro de 2016, analisou 20 notícias falsas de grande alcance no Facebook. Dentre as 20 publicações falsas, apenas três não eram a favor de Trump ou contra Hillary Clinton, também candidata no pleito. Segundo a reportagem, nos três meses anteriores o compartilhamento de Fake News na rede social fora de 8,711 milhões contra 7,367 milhões dos veículos de credibilidade. O uso das informações falsas como arma política gerou um novo cenário. Logo, o impacto nas eleições brasileiras de 2018 foi inevitável. No Brasil, em 2018, a propagação maior foi por meio dos grupos de WhatsApp. Uma reportagem da jornalista da BBC News Brasil, Juliana Gragnani, sobre esses grupos, aponta que os conteúdos possuíam teor preconceituoso, teorias conspiratórias e falsas checagens de notícias verdadeiras, entre outros.
É na necessidade de se combater as informações falsas que surgem as agências de checagem. Fact-checking é o termo utilizado para definir o trabalho jornalístico de checar informações veiculadas em meios públicos. Comparar as informações com dados e registros para comprovar a sua veracidade. O jornalista Brooks Jackson criou em 2003 a primeira plataforma de fact-checking, a factcheck.org, que foi lançada em dezembro do mesmo ano, nos Estados Unidos. Essa plataforma deu início a outras agências de checagem no país, como a 'Politifact' do jornal Tampa Bay Times e o 'Fact checker' do Washington Post, que foram criadas no período de campanha eleitoral presidencial de 2008.
O jornalismo é fundamental para uma sociedade democrática
A desinformação vai muito além das notícias falsas, mais conhecidas como Fake News. De acordo com a presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), Maria José Braga, a não informação se dá também de maneiras sutis. Quando assuntos de interesse público não são veiculados ou são abordados superficialmente e até mesmo quando a matéria está bem elaborada, mas o título é sensacionalista. Visto que, muitas pessoas apenas leem os títulos e não as matérias por completo. No entanto, para ela, a disseminação de notícias travestidas de verdade é o fator mais grave da atualidade, pois existe uma indústria lucrativa responsável pela produção delas, há uma intencionalidade. “Geralmente têm um alvo específico, querem atingir uma pessoa, uma empresa, um partido político”, disse ela.
As agências de checagem são um elemento que colaboram para diminuir a propagação dos boatos, mas têm um papel secundário. A criação de produtos verdadeiros, sim, exerce um papel primordial para diminuir essa disseminação, afirma Maria José. Uma vez que essa é uma das funções do trabalho jornalístico, investigar, apurar e publicar os conteúdos a partir da confirmação de sua veracidade. Isso diferencia o trabalho jornalístico tradicional das plataformas de verificação, porque a checagem só é feita com um conteúdo já publicado. A desinformação oferece perigo para as instituições democráticas, por privar o cidadão do direito à informação.
Diante desse cenário, segundo a presidenta da FENAJ, “há um problema gravíssimo no Brasil: a falta de veículos de comunicação na maioria dos municípios”. Mais de 4 mil cidades sofrem com o deserto de notícias, ou seja, a inexistência de uma imprensa local, para cobrir os acontecimentos. Portanto, esse é um elemento prejudicial, sobretudo, durante as eleições municipais. Já que, para a jornalista, a população não terá a informação jornalística “para balizar sua opinião sobre o candidato, para balizar o seu voto”. Com isso, fica dependente apenas da propaganda política para tomar algum tipo de decisão e construir sua opinião sobre o candidato. “Isso é muito grave, porque, historicamente, quem tem mais dinheiro atinge um contingente muito maior de cidadãos com a sua propaganda”, apontou Maria José. Assim, o jornalismo é fundamental para uma sociedade democrática, sobretudo, por ser umas das instituições sociais responsáveis por mediar a realidade. Dessa forma, o trabalho jornalístico ajuda a construir a maneira como as pessoas enxergam certo fato, como se posicionam diante dos assuntos veiculados. “A informação de qualidade, é o melhor antídoto contra a desinformação”, observou a presidenta da FENAJ.



“O futuro do jornalismo está muito ligado à colaboração”, diz o jornalista Sérgio Lüdtke
(Foto: Reprodução/Twitter)
Projeto Comprova: Jornalismo colaborativo no combate à desinformação
O projeto Comprova foi criado com o objetivo de atuar na verificação de conteúdos durante as eleições presidenciais de 2018. Atualmente conta com 24 veículos de comunicação diferentes, que trabalham em conjunto na checagem de informações suspeitas em sites, aplicativos e redes sociais. O Comprova é uma iniciativa da First Draft, um projeto de combate a desinformação online fundado em 2015 e, no Brasil, é liderado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).
O jornalista, pesquisador e editor do Comprova, Sérgio Lüdtke, explica que o projeto faz verificação de conteúdos que estão sendo publicados ou compartilhados nas redes sociais por pessoas comuns. Que não são só políticos, órgãos de imprensa, jornalistas e pessoas públicas. "As redações estão ficando menores e o futuro do jornalismo está muito ligado a colaboração", afirma.
Dentre os participantes, existem grandes veículos de mídia nacional e regional: UOL, Estadão, Folha, Nexo e, no Recife, o Jornal do Commercio. Além de veículos de mídia eletrônica de grande audiência, como SBT e Band. "Uma verificação que o Comprova faça e o jornal da Band ou o jornal SBT das 19h leve ao ar, chega tranquilamente a 18 milhões de pessoas", explica o jornalista.
No núcleo de redação - que no momento funciona remotamente - há o monitoramento e acompanhamento de uma série de sites e listas de palavras-chave. Cada investigação passa por 4 a 6 pessoas, no mínimo, antes de ser publicada. Quando publicada no site, qualquer veículo pode repostar em suas próprias páginas. "É um trabalho muito dinâmico e precisa sempre estar atualizado. A partir desse monitoramento, vemos aquilo que tem capacidade de causar algum tipo de dano", aponta. Durante a pandemia do coronavírus, os trabalhos relacionados à política, do projeto Comprova, estão suspensos e os recursos estão sendo voltados para verificação de conteúdos suspeitos sobre a Covid-19.
A escolha do conteúdo publicado baseia-se em dados concretos de postagens com altos números e grande potencial de viralização. E, ainda, leva em conta a escolha do editor, que dá a palavra final sobre o produto. "Eu quase não monitoro tweets que tenham menos de 500 retweets e vídeos no Youtube que tenham menos de 30 mil visualizações”, deixou claro o editor do Comprova. E prosseguiu: “temos um software que me diz que, nesse momento, determinado post tem o nível 'x' de viralização, mas devido aos atores envolvidos a gente prevê que daqui a 3 ou 4 horas vai estar em outro patamar".
De acordo com Sérgio, o Comprova está trabalhando este ano a fim de levantar fundos para que sete cidades entrem na coalisão e participem do processo de checagem. "Elas receberão treinamento e uma bolsa para ajudar a financiar o seu trabalho e toda uma parte prática. A intenção é ter uma em cada região do País, inclusive no Recife", relata.
Fact-checking: Um novo gênero jornalístico, defende Gilberto Scofield Jr
A agência lupa investe em educação midiática para combater a desinformação
(Foto: Reprodução/Gustavo Diogo)

A Lupa é a primeira agência de notícias do Brasil a se especializar na técnica jornalística mundialmente conhecida como fact-checking. Ela acompanha o noticiário de política, economia, cidade, cultura, educação, saúde e relações internacionais, buscando corrigir informações imprecisas e divulgar dados corretos. A agência surgiu de uma ideia da Cristina Tardáguila, de quando ainda trabalhava no jornal O Globo. Ela criou um blog chamado preto no branco feito para verificar os dados das eleições de 2014, que tinha como inspiração o Chequeado, plataforma de checagem da Argentina. O blog tinha a ideia de que mesmo depois das eleições a checagem pudesse ainda acontecer dentro do jornal, como um novo gênero jornalístico. Diante de todo o cenário de desinformação ligada ao período eleitoral, Gilberto Scofield Jr. diretor de Negócios e Estratégia da Agência Lupa, falou sobre as ações da agência para o combate dessa disseminação.
O número de pessoas produzindo e disseminando Fake News é muito maior que a quantidade de agências de checagem, então a Lupa levou em consideração esse fator para criar o projeto ‘lupa educação’. Existe uma indústria de desinformação como estratégia no mundo e a agência entendeu que era preciso ampliar a quantidade de checadores. Desde o ano passado, a iniciativa começou a treinar todos os Tribunais Regionais Eleitorais do Brasil e o TSE, para se protegerem da desinformação durante as eleições deste ano. Além do projeto do treinamento dos TRE’s, está sendo feito o treinamento de 15 jornalistas de cada uma das 26 capitais e do Distrito Federal. “Ainda existe uma incerteza em relação às eleições desse ano, mas de qualquer forma estamos nos preparando para fazer essa checagem hiperlocal”, declara Scofield.
As campanhas eleitorais estão totalmente paralisadas. Então, a Lupa não tem trabalho voltado para elas neste momento, por causa da pandemia. 80% da atenção está voltada para o vírus, para a desinformação a respeito da Covid-19 e das ações do Governo. Mas a checagem da desinformação relativa a outros assuntos ainda acontece. As plataformas de verificação são necessárias, pois a checagem é parte do processo de produção da reportagem. Hoje, a checagem dentro das redações é feita de uma forma diferente, logo depois da publicação da matéria e não é necessariamente ligada com quem a publicou. Não tem a intenção de derrubar efetivamente uma declaração, mas de colocar ela sob uma perspectiva real, por isso que a checagem pode ser considerada um novo gênero
jornalístico. “O jornalismo exige tempo, então a checagem é uma complementação da qualidade jornalística, por isso que eu enxergo ela como um novo gênero jornalístico”, defende o diretor de Negócios e Estratégia da Agência Lupa.

Essa matéria foi escrita por Thalyta Nascimento, Lourice Rocha, Maria Clara Gomes e Brenda Bertoldo, sob orientação da professora Ana Carolina.